O Fator Humano como Base da Conformidade e do Resultado – a atualização da NR-1

Por:
Bruno Severo Oliveira ( AB&M Desenvolvimento )
Marina Soares ( Casa da Liderança )

Em um mercado dinâmico, onde a eficiência operacional, o preço competitivo, a busca pela excelência e a logística impecável ditam o ritmo do sucesso, um elemento invisível costuma ser decisivo para a alta performance e a sustentabilidade das organizações: as relações humanas. Em nossa trajetória como consultores, consolidamos uma máxima que pode ser observada no cotidiano de muitas equipes: o fracasso nos indicadores é, quase sempre, o sintoma final de uma cultura de convivência que já se desgastou.

O foco exclusivo em resultados de curto prazo, a falta dos recursos adequados e a ausência de uma política que valorize relações saudáveis e estimule comportamentos alinhados a valores sólidos, impacta diretamente os processos e, invariavelmente, os resultados de uma organização. O desgaste do clima organizacional começa de forma silenciosa, e é nesse contexto que a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) se atualiza, passando a incluir de forma explícita os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, sempre presentes na dinâmica do trabalho, que agora deixam de ser apenas um tema de gestão e passam a constituir uma exigência legal vinculada à gestão de riscos.

Na prática, essa atualização implica a identificação, avaliação e tratamento desses riscos no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. Não se trata de recomendação, mas de conformidade legal.

A Anatomia do Risco Invisível
A cultura de agilidade, fundamental para a competitividade da nossa indústria, pode, por vezes, mascarar comportamentos que fragilizam as equipes de trabalho. Uma brincadeira que fere ou um julgamento velado, se permitido ou desconsiderado pela liderança, pode se transformar em barreiras para o engajamento e para a própria competitividade no longo prazo. Nem sempre comportamentos inadequados vêm à tona de imediato; muitas vezes, o receio de retaliações morais ou a insegurança quanto ao futuro profissional mantêm as pessoas impactadas em silêncio, consumindo a energia que deveria estar voltada à inovação e à produção.

Sob a ótica da NR-1, esses fatores passam a ser compreendidos como riscos psicossociais relacionados ao trabalho — elementos concretos da organização do trabalho e das relações profissionais como, assédio de qualquer natureza, falhas na gestão de mudanças, sobrecarga ou subcarga de demandas, conflitos recorrentes, baixa clareza de papéis, falhas de comunicação e ausência de suporte da liderança, podem afetar diretamente a saúde mental, o comportamento e o desempenho das equipes.
Historicamente, a atenção das empresas esteve voltada para riscos tangíveis como o ruído, o manuseio de máquinas, equipamentos e produtos químicos. No entanto, os aspectos psicossociais — que sempre estiveram presentes na dinâmica de trabalho — agora ganham um novo patamar de importância no desenvolvimento das organizações, passando a ser vistos como componentes obrigatórios da gestão moderna de riscos, fazendo parte dos riscos ergonômicos.

NR-1: A Governança do Invisível
A NR-1 evoluiu para olhar além dos riscos visíveis. Ela agora reconhece os riscos invisíveis produzidos pela dinâmica do trabalho contemporâneo, que impactam silenciosamente a saúde das pessoas e o vigor das organizações. Mais do que um conjunto de regras, a NR-1 funciona como a base de governança para a saúde no trabalho, estruturando responsabilidades, processos e rotinas. O grande valor dessa atualização está no convite às empresas para que ampliem seu campo de visão de cuidados.
Essa exigência se aplica a todas as empresas, independentemente do porte ou segmento. A responsabilidade pela gestão dos riscos psicossociais no trabalho é uma questão organizacional e envolve políticas, liderança, processos e decisões de gestão.

Riscos psicossociais não são conceitos teóricos para figurar em relatórios; eles se manifestam na sobrecarga que se torna hábito, nas metas que parecem inalcançáveis sem o suporte adequado, nos conflitos não mediados e naquelas conversas essenciais que acabam sendo adiadas.
A ausência de ações estruturadas pode gerar impactos humanos e operacionais, além de expor a empresa a autuações, multas e passivos trabalhistas.